
| Nome: Max Idade: 21 Status: Caminhando |

“Seria cômico se não fosse trágico” (sempre quis dizer isso).
No Rio de Janeiro tem muitos motéis, muitos mesmo, incontáveis eu diria. Afinal, não é assim que o Rio é conhecido? Terra da sensualidade, reflexo deste século sexocentrista, mas o que quero lhes contar é o que vi quando retornava da Central do Brasil pela Rodovia Washington Luiz. Confesso que não pude deixar de rir antes de pensar o quanto isto é sério. Na entrada de um motel, quase escondendo os serviços oferecidos (sauna, piscina, hidro, etc) o outdoor exibia como slogan:
“Amai-vos uns aos outros”.
Os sons para trás de mim, como em uma surdez progressiva, abafados lentamente, davam-me a impressão, por mais real que fosse, que este outro mundo deixava de existir. Meus sentidos o recusava. A fronteira da sensibilidade levantava a cancela somente para o belo e sublime.
Era um dia normal, devo dizer, entre vilanias e grandezas que se aporcalham de vez em quando, mas o Rio é assim mesmo, como todo o resto. A praia, em um dia como este, não é atraente nem convidativa, pois mesmo estando ao final do crepúsculo e o mar de ressaca, o sol inibiu-se por todo o dia deixando apática e sem graça a famigerada Copacabana. Mas não! Não naquele momento! Ali tudo era diferente.
Eu não tinha grandes problemas. Talvez o maior deles fosse desconhecer qual ônibus me levaria para casa. Só queria pensar. Não pensar simplesmente como se faz ao traçar metas, arquitetar caminhos, como sondando sentimentos, imaginando, inventando, idealizando, sonhando acordado. Pensar em algo que não fosse eu mesmo, ainda que não houvesse razão.
A orla quase deserta. Sentei-me a olhar o mar. Descalço, queria sentir o toque da areia - Oh! Admirável e deslumbrante mar! Que encanta, fascina, seduz. Que desejo é este de entregar-me às tuas vagas e me perder em você! - Deitei-me ao estender os braços, arrebatou-me os sentidos, cada grão de areia me acariciava, o som das ondas, o cheiro da maresia, a brisa, o vôo das gaivotas abaixo do céu prateado. Sim! Eu as podia sentir e nada mais senão isto. Tudo o mais se perdeu. O tempo se perdeu. Não posso dizer-lhe se minutos ou horas se passaram. Não existiram momentos. Fui absorvido em elevo e contemplação, inspiração e entusiasmo. Um rapto das sensações. O vivo prazer que absorve todo e qualquer sentimento.
Até que voltei deste êxtase. Levantei-me sem desviar os olhos do mar. Um único segundo era precioso demais para perder-se. O fim do dia anunciava-me que precisava ir. Todos precisam, agora eu sei. É verdade que não podemos ficar. Ao menos até que este sol não torne a esconder-se. Mas não é tão fácil. Os que já estiveram ali sabem o que digo. É como arrancar o próprio coração. Bastou um olhar para trás e ele pressionou o meu peito forçando um grito sufocado. Já estava chorando. Prostrei-me, enterrando a testa na areia que se misturava ás minhas lágrimas. Cerrando um punhado entre os punhos, como que segurando-me para que ninguém pudesse me tirar dali. Diriam que estava louco se estivessem me observando. Em posição fetal, entre espasmos, com a boca entreaberta por não conter o choro, clamava – Não vou voltar lá... Não posso voltar... Quero ficar aqui... Não vou voltar... Não vou voltar...
Também não sei dizer quanto tempo isto durou, mas, como disse, precisava ir, todos precisam. Cada passo para a calçada era uma punhalada no peito. E voltei a ver os prédios, os poucos carros daquela noite, os transeuntes... o Rio e todo o resto.
Hoje eu entendo. Agora sei o porquê daquele sobressalto. Medo, esse é o motivo, tive medo e ainda tenho, confesso-vos isto. Medo de perder e não mais encontrar, medo de deixar-me levar. Meu Deus! Como sou propenso a isto. Medo de esquecer. Sim! Esquecer de como é e deixar de viver. No entanto, ele sempre estará lá...
O toque da areia, o cheiro da maresia, a brisa, o vôo das gaivotas, o mar...